Sabe aquela bagunça bem sonora, aquela confusão feita com gosto? Baderna significa exatamente isso — um caos divertido.
Mas, de onde essa palavra surgiu?

Tudo começa no Rio de Janeiro por volta de 1851, com a bailarina italiana Marietta Maria Baderna. Ela chegou com uma companhia de dança italiana em meio às lutas políticas na Europa e incendiou a imaginação da plateia carioca ao misturar o lundu afro-brasileiro* com o ballet clássico. Marietta causou um frisson, e seus fãs enlouquecidos passaram a entoar seu sobrenome nos teatros. Eram os “badernas” — gente barulhenta e apaixonada. O nome acabou virando sinônimo de “confusão”, “bagunça” e “desordem” no português brasileiro.
O que começou como frisson, virou escândalo.
Marietta, com sua postura ousada — tanto no palco quanto na forma como transitava entre classes sociais e estilos culturais — passou a incomodar a elite carioca. Não era só uma bailarina: era uma mulher estrangeira, jovem, influente e vista como “fora dos padrões” da moral da época. Em vez de seguir o script esperado da arte europeia “fina”, ela misturava lundu com ballet. E isso, para os conservadores, era simplesmente inadmissível.
A elite passou a hostilizá-la publicamente. Parte da imprensa da época chamava seus espetáculos de indecentes, insinuava que ela era promíscua e afirmava que seus fãs eram desordeiros — os “badernas”. Foi assim que, pouco a pouco, o nome dela foi se distorcendo até virar sinônimo de confusão. Não por acaso, a palavra baderna carrega até hoje uma carga de julgamento moral embutida.
O significado hoje
Hoje baderna é exclusivamente brasileiro e vive no dicionário com significados como “desordem”, “algazarra”, “bagunça” ou até “festança noturna animada”. Ainda pesa a ideia de algo negativo: tumulto indisciplinado.
E se você quiser assistir a um vídeo bem legal que conta essa história de forma ilustrada e resumida, aqui vai:
Timeline: da bailarina à bagunça
1830 – Nasce Marietta Maria Baderna em Itália 🇮🇹
1851 – Marietta desembarca no Rio de Janeiro com uma companhia de dança italiana.
1851-1852 – Ela enlouquece o público misturando ballet clássico com ritmos populares brasileiros, como o lundu. O povo vibra!
1852 – Surge o fã-clube barulhento: os “badernas”, que lotavam os teatros gritando seu nome. A elite começa a torcer o nariz.
1853 – A imprensa conservadora começa a atacá-la: chamam seus espetáculos de escandalosos e seus fãs de arruaceiros. Marietta vira alvo de hostilidade moral e social. A arte vira afronta.
1855 – O termo “baderna” aparece oficialmente nos jornais como sinônimo de desordem. A palavra se solta do sobrenome e gruda no vocabulário popular.
Hoje – A origem é quase esquecida, mas o termo continua vivo — e agora você sabe que veio de uma mulher que dançava o cotidiano popular. 💃
*CONTEÚDO ADICIONAL
O lundu é uma das mais antigas manifestações musicais e coreográficas afro-brasileiras. Surgiu no Brasil colonial, principalmente a partir do século XVII, como resultado da mistura entre elementos culturais trazidos por africanos escravizados (sobretudo da região de Angola e Congo) com práticas musicais e danças europeias.
Ele é considerado um dos antecessores diretos do samba e influenciou gêneros como o maxixe, a modinha e até o choro.
🎶 Características do lundu
- Ritmo marcado e sensual, com forte presença da percussão africana.
- Dança de pares, geralmente envolvia movimentos de corpo insinuantes, com ginga e aproximações sutis.
- Instrumentos típicos: atabaques, pandeiros, tambores e, mais tarde, também o violão e cavaquinho.
- Letra e melodia: no início era predominantemente instrumental, mas com o tempo ganhou letras que misturavam línguas africanas, português popular e até sátiras sociais.
🌀 Por que causava escândalo?
Porque o lundu era visto pelas elites coloniais como “coisa de escravo” ou “dança lasciva”, sendo frequentemente associado à sensualidade e ao comportamento imoral — o que explicaria, inclusive, o choque cultural causado pela mistura feita por Marietta Baderna entre o ballet europeu e o lundu, que tinha origem periférica, negra e popular.
📚 Curiosidade
O historiador José Ramos Tinhorão tem estudos preciosos sobre o lundu e sua importância na formação da música popular brasileira. Já a etnomusicóloga Oneyda Alvarenga também destacou o valor da dança como resistência cultural afrodescendente em pleno Brasil escravocrata.
Quem é que não gosta de uma boa baguncinha com dança, música e gente livre? 😉

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